A Audiência Pública da Comissão de Infraestrutura realizada na manhã desta terça-feira (5/10) no Senado Federal reuniu representantes das cadeias do biodiesel, combustÃveis, máquinas, veÃculos e de órgãos reguladores para discutir o teor de biodiesel no diesel mineral.Â
Durante o debate surgiram declarações equivocadas acerca do teor e questionamentos sobre a qualidade do biodiesel, possÃveis problemas mecânicos atribuÃdos ao seu uso, aumento dos custos de manutenção, e até a respeito de testes que não confirmaram a viabilidade do B15 (15% de biodiesel adicionado ao diesel).Â
Para o presidente executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (ABIOVE), André Nassar, a discussão deveria ficar no âmbito de melhorar a qualidade do produto por meio de boas práticas e respeitando as especificações da ANP, e não querendo interferir no cronograma de mistura já aprovado pelo CNPE. Em sua apresentação, Nassar rebateu cinco questões principais abordadas de maneira imprecisa sobre o biodiesel.Â
1.Fixar a mistura em 10%Â
A decisão sobre o teor de biodiesel é do governo federal, uma vez que a cabe a ele implementar a polÃtica de substituição de combustÃveis fósseis por renováveis, da qual o biodiesel é parte. Não cabe a outros setores questionar a polÃtica pública, e sim implementá-la, fazer negócios com competitividade e oferecer os melhores serviços aos consumidores.Â
2.O biodiesel provoca danos a motores, peças e componentesÂ
Em rarÃssimos casos foram apresentados dados objetivos da relação entre problemas especÃficos e o biodiesel. As afirmações feitas reportam que tais problemas ocorrem quando há armazenamento do diesel B por longo perÃodo de tempo. Quando este é utilizado no ciclo normal de consumo, tais problemas não são reportados.Â
Em nenhum momento foram apontadas boas práticas de armazenamento e riscos de contaminação do diesel mineral como causadores dos referidos problemas. Foi tomada a decisão de, arbitrariamente, associar tais complicações ao biodiesel apenas porque o teor está sendo elevado. Não se trata de questões de qualidade, mas sim de estacionar o biodiesel.Â
3.Testes realizados não confirmaram a viabilidade da utilização de B15Â
Foram realizados 44 testes por montadoras de veÃculos, apenas três foram considerados como desfavoráveis, e em todos eles a conclusão estava associada à estabilidade oxidativa do diesel. Houve teste feito por montadora com biodiesel fora de especificação, pois ficou armazenado inadvertidamente por longo tempo. Os produtores de biodiesel assumiram a elevação de oito para 12 horas, na saÃda da usina, de estabilidade oxidativa, o que credenciou o produto para o B15. Assim, promoveram aumento na estabilidade do diesel por livre decisão.Â
4.O biodiesel gera custos adicionais de manutençãoÂ
Todo combustÃvel tem benefÃcios e custos para seus consumidores. A utilização crescente de biodiesel traz inúmeros benefÃcios: menor emissões de GEE e de particulados, produção pulverizada no paÃs, geração de empregos locais, adição de valor à soja, geração de valor em resÃduos (economia circular). O biodiesel brasileiro é produzido a partir de uma ampla oferta de matérias-primas. Isso é fundamental para garantir abastecimento. O argumento dos custos adicionais tem a intenção de restringir uso de matérias-primas. Mas, assim como a redução do teor de enxofre no diesel requer adoção de novas práticas de transporte e armazenamento, o biodiesel também requer que tais práticas sejam adotadas.Â
Ocorre que quem transporta, armazena e comercializa o diesel com teores crescentes de biodiesel insiste em chamar de “custos adicionais†procedimentos que são, na verdade, básicos para quem quer ofertar combustÃvel de qualidade ao consumidor. Assim, não há custos adicionais, mas sim a necessidade de adoção de procedimentos de melhor padrão.Â
5.O Programa de Biodiesel preconiza não privilegiar rotas tecnológicas de produçãoÂ
Os produtores de biodiesel são favoráveis a uma substituição em escala do diesel fóssil por combustÃveis renováveis como o biodiesel e o HVO. No entanto, a única tecnologia madura e disponÃvel a preços competitivos hoje no mercado é a esterificação, que resulta na produção de biodiesel. As tecnologias de hidrogenação dos óleos/gorduras vegetal/animal estarão disponÃveis somente após a consolidação do biodiesel como alternativa para substituição de diesel fóssil. Sem o biodiesel, não haverá óleos vegetais disponÃveis em larga escala para produção de HVO. Sem o biodiesel não há esmagamento de soja. O B15 é mandato do biodiesel apenas, mas queremos 50% de substituição de diesel fóssil como hoje já ocorre no ciclo Otto.Â
Nassar ainda destacou que o diálogo desses setores com a indústria de biodiesel não está ocorrendo. “Nunca houve este diálogo com os produtores de biodiesel. A ABIOVE procurou essas empresas algumas vezes, propusemos reuniões, mas afirmaram que não tinham interesse em trabalhar com produtores de biodiesel. Nenhuma delas teve interesse em conhecer o Bio+, nosso programa de certificação de qualidade, lançado em março de 2020. Vale lembrar que a especificação do biodiesel no Brasil é a mais rÃgida entre produtores e isso também nunca foi reconhecidoâ€.Â