As novas regras para a comercialização de biodiesel que vão vigorar a partir de janeiro com o fim dos leilões vão prejudicar agricultores familiares e desestimular novos investimentos pelas indústrias do setor. O alerta é da União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio) ao analisar as mudanças previstas na resolução 857 da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e BiocombustÃveis (ANP) e publicadas nesta sexta-feira (29.10).
A entidade considera que, ao definir em 80% a compra mÃnima de biodiesel das industrias com selo social pelas distribuidoras, a ANP limita o volume potencial de venda da matéria prima ofertada pela agricultura familiar.
Isto ocorre porque a nova regra induz a comercialização de 20% do volume do biodiesel consumido no paÃs pela negociação direta entre produtor e distribuidor, sem exigência do selo biocombustÃvel social.
Levantamento da Ubrabio mostra que em todos os leilões realizados desde maio deste ano, 100% do biodiesel negociado foi proveniente de usinas com selo biocombustÃvel social, apesar da regra que vigorou até agora só exigir os mesmos 80% de compra mÃnima de usinas que tem a chancela do selo.
“O novo regime de contrato e venda direta desestimula a compra de biodiesel, pelas distribuidoras, em usinas que tem selo socialâ€, adverte o diretor superintendente da Ubrabio, Donizete Tokarski.
Com a possibilidade de comprar 20% do biodiesel necessário para o abastecimento de usinas sem selo social, a nova regra da ANP pode deixar de fora do programa cerca de 15 mil famÃlias de agricultores que hoje fornecem matéria prima à s indústrias e perderão a possibilidade de aproveitar esta fatia de mercado.
Importação
Outra mudança no mercado de biodiesel prevista na resolução da ANP é a possibilidade de importação do biocombustÃvel. Mesmo ressalvando que a compra do produto no mercado externo seria uma excepcionalidade que necessitaria de autorização prévia do governo, a Ubrabio considera esta medida um desestÃmulo à ampliação do parque industrial do biodiesel.
“Além de desestimular a compra interna de biodiesel, esta regra vai gerar renda e emprego no exterior, reduzir os efeitos das externalidades positivas que geramos internamente na cadeia do biodieselâ€, ressalta Donizete Tokarski.
Hoje mais de 74 mil famÃlias da agricultura familiar participam do Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB), o que representa mais de 300 mil pessoas que dependem desta atividade. O faturamento anual destas famÃlias com a venda de matéria prima para as indústrias é de R$ 6 bilhões. Leia aqui a Ãntegra da resolução da ANP.
Ao longo deste ano a Ubrabio e as ouras entidades que representam os produtores de biodiesel solicitaram ao governo e à ANP a prorrogação dos leilões até que se resolva como ficará o recolhimento de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) ao longo da cadeia produtiva, mas não foram atendidas. A questão ficou em aberto e depende de decisão do Conselho Nacional de PolÃtica Fazendária (Confaz).
Para agravar ainda mais a situação, o Conselho Nacional de PolÃtica Energética (CNPE) não definiu quais os percentuais de mistura de biodiesel ao diesel de petróleo ao longo do próximo ano, o que deixa na incerteza todo o setor de produção do biocombustÃvel.