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Por Ana Mano
SÃO PAULO (Reuters) – A PolÃcia Federal prendeu na manhã desta quinta-feira nove suspeitos na Reserva IndÃgena Serrinha, no Rio Grande do Sul, pelo suposto envolvimento deles em um duplo assassinato ocorrido há quase dois meses.
De acordo com um comunicado da PF, 300 agentes participaram da operação para prender os responsáveis pelo homicÃdio de dois indÃgenas, ocorrido em 16 de outubro.
Os crimes estão ligados ao arrendamento de terras para o plantio de grãos como soja dentro da reserva, que tem 12 mil hectares e fica no norte do Rio Grande do Sul.
O episódio de violência ilustra a pressão do agronegócio para ampliar as áreas com cultivo de grãos no Brasil. A realização de atividade agrÃcola e mineração em terras indÃgenas é apoiada pelo presidente Jair Bolsonaro.
As mortes em Serrinha ocorreram após um grupo de cerca de 20 indÃgenas ter sido banido pela liderança da reserva, segundo a PF.
A investigação aponta que os indÃgenas expulsos da comunidade estavam reunidos com o objetivo de protestar contra a liderança de Serrinha quando foram cercados e surpreendidos por um grupo armado e formado por dezenas de apoiadores dos lÃderes da localidade.
Os homens armados dispararam contra os manifestantes e mataram dois indÃgenas, segundo a PF. O restante do grupo que protestava conseguiu fugir, apesar de ser perseguido e de ter enfrentado disparos de arma de fogo.
Autoridades a cargo da investigação e membros do povo Kaingang disseram que os arrendamentos para produtores de grãos na reserva de Serrinha criaram conflitos no local e em comunidades vizinhas. As disputas recaem sobre como a renda dos aluguéis das terras é distribuÃda.
As prisões desta quinta-feira aconteceram depois que o Ministério da Justiça enviou a Força Nacional de Segurança à reserva, o que ocorreu três dias após o duplo assassinato.
“A motivação que a gente aponta é sempre a mesma nos conflitos indÃgenas. Historicamente, a questão é a posse da terra pelo cacicado, pelos lÃderesâ€, disse o delegado da PF Sandro Bernardi, em entrevista coletiva nesta quinta.
Segundo ele, na Terra IndÃgena de Serrinha, há 4 mil hectares de produção de soja, que podem gerar 200 mil sacas valendo algo como 30 milhões de reais. Caso haja o arrendamento e uma cobrança de 15% pelo arrendamento, isso geraria para o cacique entre 3 e 4 milhões de reais por ano.
“Este dinheiro é o mote de todas as disputas que a gente vê nesta região.â€
Embora o arrendamento seja considerado inconstitucional, um acordo de 2019 entre a Fundação Nacional do Ãndio (Funai), procuradores federais e a Cotriserra, uma cooperativa de indÃgenas de Serrinha, permite que as terras da reserva continuem sendo arrendadas para agricultura.