Se você é uma pessoa que não tem paciência para a leitura e que tira as conclusões “numa passada de olhosâ€, adianto-lhe que este texto é um pouco extenso, mas que vale a pena a sua leitura. Porque, assim como vale a pena esperar o tempo de assar uma boa costela na brasa, aqui também compensará a sua leitura com calma até o final.
Estamos vivendo momentos muito difÃceis em razão das crises socioeconômicas que foram agravadas pela pandemia e pelo momento extremamente polarizado. Diante de uma situação como essa, as pessoas tornam-se mais sensÃveis e a tolerância se esvai muito rapidamente.
O stress ao qual estamos sendo expostos há meses tem levado nossos nervos à flor da pele diante de fatos que, em outras épocas, passariam até despercebidos.
Um bom exemplo desta explosão desproporcional de ânimos exaltados é o caso do post da cerveja Heineken publicado nas redes sociais, fazendo alusão ao “Dia Mundial sem Carneâ€.
A peça publicitária mostra um copo da cerveja sobre lúpulo verde e traz o texto: “20 de Março. Neste Dia Mundial Sem Carne, que tal comer e beber mais verde? A cerveja feita com água, malte, lúpulo e nada mais é a opção perfeita para o acompanhamento de hojeâ€.
Este anúncio, pequeno no tamanho, mas grande no barulho que causou, despertou a ira de pessoas ligadas à pecuária e de apreciadores de carne, provocando uma avalanche de manifestações negativas e crÃticas, motivando mais de 28 mil comentários na rede social da Heineken.
É importante esclarecer que o objetivo deste texto que você está lendo é trazer à luz uma visão ponderada e amistosa do fato. É bom avaliar por outro prisma que não apenas o da “lacraçãoâ€, como se refere uma nova geração que tem eliminado as possibilidades de diálogo.
O “Dia Mundial Sem Carne†surgiu em 1985 nos Estados Unidos e foi criado por uma ONG chamada FARM. Portanto é um movimento que existe há muito tempo e desde seu inÃcio divulga e incentiva as pessoas a passarem um dia sem comer carne, inclusive aqui no Brasil. Mas nunca houve tamanha critica a quem mencionasse este dia como aconteceu no caso da Heineken.
No dia a dia do marketing das empresas, muitas ações e peças de comunicação têm sido delegadas a profissionais sem muita experiência ou sem uma visão sobre qual a extensão do impacto das mensagens. Um post, por exemplo, pode passar despercebido, gerar bom engajamento ou não agradar.
O caso da Heineken revela ou deixa evidente uma falha no processo de construção da comunicação adotado pelos profissionais de marketing das empresas: eles não têm se atentado a pontos importantes, como o ambiente ao qual a comunicação das suas marcas estará inserida ou não conhecem as diversas tribos que consomem os seus produtos. Se o fizessem se livrariam de comemorarem uma data que afronta e ofende um segmento como é o da pecuária, que emprega cerca de 2 milhões de brasileiros, movimentou em 2020 cerca de R$ 620 bi e representa algo como 8,5% do PIB do Brasil.
No ranking de momentos de consumo de cerveja certamente o churrasco deve figurar entre os primeiros. E não existe churrasco sem carne, assim diz o dicionário quando define que churrasco é “pedaço de carne (bovina, suÃna, de aves, embutidos, etc.) assada sobre brasas.â€
Aliás, este é um ponto interessante a levantar: não há churrasco sem carne, e carne é sinônimo de proteÃna animal. Portanto, não existe “carne de plantaâ€, aqueles alimentos plant-based que imitam carne definitivamente não são carne. Esta sim parece ser uma boa discussão e deveria unir o segmento da pecuária para reivindicar que os produtos plant-based não utilizem a denominação “carneâ€.
Os profissionais de marketing e comunicação falharam por não conhecerem, não pesquisarem e não se atentarem ao fato de que o “Dia Mundial Sem Carne†incomoda um público apaixonado pela proteÃna, especialmente as pessoas ligadas à pecuária. Se dedicassem mais tempo em avaliações de cenários para dar bases à sua estratégia de comunicação, notariam que uma das suas maiores concorrentes, não à toa, investe muito em festas de peão e no universo relacionado à pecuária.
É difÃcil acreditar que o post da Heineken tenha sido pensado ou que faça parte de uma estratégia. Parece muito mais que esta peça preencheu um calendário de postagens e quem o definiu viu que havia uma data que comemorava algo que daria a chance de fazer uma “gracinhaâ€, nada além disso. Como não temos uma declaração da empresa, este raciocÃnio, assim como aqueles que acham que tudo foi feito “de caso pensadoâ€, são meras especulações. O fato é que houve uma falha na comunicação da marca que não agradou um importante segmento da economia e milhares de consumidores. Embora entenda-se que os profissionais falharam, ainda assim é preciso ponderar sobre a pena que está sendo imposta à marca Heineken.
Em setembro de 2019, o programa Papo de Segunda, do canal GNT, provocou indignação em muita gente. Foi um programa inteiro com os apresentadores falando dados irreais e conceitos inexistentes, inventados por eles, levando o público à compreensão equivocada e, inclusive, muita coisa errada foi dita a respeito da pecuária.
Este foi um episódio que tinha tudo para suscitar uma ação mais enérgica das pessoas envolvidas com a pecuária, tal qual está acontecendo com este post da Heineken, mas não foi o que aconteceu à época.
A ação enérgica partiu da ABMRA – Associação Brasileira de Marketing Rural e Agronegócio – que tomou para si a iniciativa de pleitear o direito de resposta à emissora. Veja este episódio no link: www.oterritoriodacarne.com.br/artigo/direito-de-resposta.
Então precisamos nos perguntar: será que as crÃticas e o castigo que estão tentando impor à Heineken são proporcionais? Será que promover o boicote à marca e fazer vÃdeos despejando a cerveja no chão trarão algum resultado benéfico à pecuária nacional?
Trazendo à esta avaliação um outro dado: a Pesquisa ABMRA constatou que, para 58% dos produtores rurais entrevistados, a sua imagem perante a população urbana é regular ou péssima. Uma percepção bastante preocupante, se pensarmos que o produtor é o nosso provedor de alimentos e de matérias-primas que abastecem muitos outros setores da economia.
Foi para conectar toda a cadeia produtiva do Agro, especialmente o campo à cidade e para estimular a empatia da população urbana pelos produtores que recentemente foi lançado o movimento Todos A Uma Só Voz (www.todosaumasovoz.com.br). Uma inciativa inédita que se propõe mostrar para toda a população tudo o que o Agro e a nossa pecuária têm de melhor. Este movimento tem ajudado a colocar por terra os mitos e as fake news. Também tem estimulado as crianças a respeitarem e a admirarem todo o trabalho realizado pelos produtores no campo.
Como o próprio nome diz, o movimento Todos A Uma Só Voz é uma ação de conexão, que pretende unir forças para criar admiração e empatia.
Mas, como podemos gerar empatia se não tivermos o diálogo como principal plataforma?
Um arcebispo chamado Desmond Tutu, consagrado com o Prêmio Nobel da Paz em 1984, certa vez comentou: “não levante a sua voz, melhore os seus argumentosâ€.
O que não faltam são argumentos e fatos que comprovam que a pecuária nacional é grande, é responsável e é inovadora, basta conhecer iniciativas como as promovidas pelo GTPS – Grupo de Trabalho da Pecuária Sustentável (www.gtps.org.br) ou pelo Grupo ETCO (www.grupoetco.org.br), que promovem a sustentabilidade e o bem-estar animal. Mas precisamos contar toda esta história para a população brasileira.
Parece ter chegado a hora do segmento se organizar para estruturar uma consistente e profissional campanha de comunicação para mostrar a todos os brasileiros o que é de fato a pecuária do nosso PaÃs. É preciso sair da posição reativa, de responder à s fake news, para assumir uma posição de comunicação que posicione corretamente um dos segmentos que têm sustentado a economia do Brasil.
Voltando ao caso da cerveja e para finalizar, não há dúvida de que a melhor forma é o diálogo e a troca de ideias. Porque não parece razoável tentar cancelar uma marca que cometeu uma gafe na sua comunicação e que isto abale um casamento que há tempo tem dado tão certo. Afinal, um bom churrasco sempre será acompanhado por uma boa cerveja.
Por isso, propomos um brinde à boa prosa, à amizade e a tudo o que podemos construir juntos, Todos A Uma Só Voz, tornando a pecuária brasileira ainda mais forte.