A pesquisadora Mariangela Hungria, da Embrapa Soja, ao lado do cientista chinês Li Jiagyang, é covencedora do prêmio cientÃfico TWAS-Lenovo, criado em 2013 pela Academia Mundial de Ciências (The World Academy of Sciences- TWAS) e a Lenovo, empresa chinesa lÃder mundial em tecnologia. Entre indicações de mais de 150 paÃses, Mariangela ganhou o prêmio por suas pesquisas em fixação biológica do nitrogênio, tecnologia que aumenta a produtividade da soja tropical sem o uso de fertilizantes quÃmicos.
O Prêmio homenageia os estudos da pesquisadora brasileira voltados para o desenvolvimento de inoculantes à base de bactérias que substituem os fertilizantes nitrogenados e possibilitam uma agricultura mais sustentável.
Além disso, a pesquisadora é reconhecida internacionalmente por seus esforços para capacitar mulheres na Ciência do Solo e na Agricultura. Com atuação em microbiologia do solo e vasta contribuição para o avanço na ciência básica, Mariangela tem incentivado o trabalho de diversas mulheres na ciência, por meio da orientação em mestrados e doutorados. “O prêmio recebido de 50 mil dólares será aportado integralmente para premiações ou outras atividades de apoio a mulheres, com ênfase em mulheres com pesquisa em microbiologia agrÃcolaâ€, destaca. Mariangela pretende retribuir as oportunidades que teve com ensino superior público de qualidade, da graduação ao doutorado, na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ/USP), em Piracicaba (SP) e na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), em Seropédica (RJ). “Também fui bolsista de pós-doutorado e recebi apoio financeiro a projetos de pesquisa de extrema importância para nosso laboratório do CNPq. Pude dedicar minha carreira no desenvolvimento de pesquisas para a sustentabilidade agropecuária na Embrapa. Estou extremamente feliz por poder retornar uma pequena fração do que recebi e vou começar por esse prêmioâ€.Â
O presidente da TWAS, Mohamed H.A. Hassan, reforçou que Mariangela é uma das principais microbiologistas de solo do mundo, especialmente na área de fixação biológica de nitrogênio. “Sua pesquisa contribuiu para a substituição bem-sucedida do fertilizante quÃmico de nitrogênio por inoculantes microbianos, o que resultou na economia de bilhões de dólares no Brasilâ€, destacou. O vice-presidente sênior da Lenovo, George He, acrescentou: “Estamos muito satisfeitos em parabenizar os vencedores do prêmio deste ano, que são pesquisadores de grande sucesso nas ciências agrÃcolas. Tanto Li Jiayang, que fez descobertas indispensáveis importantes para a produção de arroz, e Mariangela Hungria, que introduziu importantes práticas agrÃcolas ecologicamente corretas no Brasil e empoderou mulheres em seu campo, são pesquisadores espetacularesâ€.
Em seis edições, as áreas contempladas foram FÃsica e Astronomia (2013), Ciências Biológicas (2014), Matemática (2015), QuÃmica (2016), Geologia (2017) e Engenharia (2018). Nessas edições, somente em 2014 uma mulher foi premiada, pelos estudos sob prevenção da AIDS e saúde da mulher na Àfrica. Em 2020, na sétima edição, a agricultura foi contemplada pela primeira vez. Os dois vencedores do prêmio são agrônomos que conduzem pesquisas básicas e aplicadas envolvendo desde manipulação com genes até a adoção de tecnologias a campo.Â
Fixação Biológica do Nitrogênio (FBN) – Mariangela explica que, somente em 2019, a Fixação Biológica do Nitrogênio (FBN) trouxe uma economia de 14 bilhões de dólares ao Brasil. Isso porque para produzir 1 tonelada de soja são necessários cerca de 80 kg de nitrogênio. Esse nutriente é o mais requerido pela cultura e pode ser obtido gratuitamente na natureza, por meio de algumas bactérias do gênero Bradyrhizobium (risóbios). De acordo com a pesquisadora, essas bactérias são capazes de capturar o nitrogênio da atmosfera e transformá-lo em fertilizante para as plantas. A fixação biológica do nitrogênio dispensa a utilização de fertilizantes nitrogenados na cultura da soja; produtos que além de aumentar os custos de produção, podem ser prejudiciais ao ambiente.
Além dos trabalhos com rizóbios em soja, Mariangela também já coordenou pesquisas que culminaram com o lançamento outras tecnologias: autorização/recomendação de bactérias (rizóbios) para a cultura do feijoeiro, Azospirillum para as culturas do milho e do trigo e de pastagens com braquiárias e coinoculação de rizóbios e Azospirillum para as culturas da soja e do feijoeiro e melhoria das pastagens. “Em um curto espaço de seis anos, a coinoculação da soja já é adotada em 25% de toda a área cultivada com soja no Brasil, mostrando a importância da tecnologiaâ€, destaca Mariangela. A pesquisadora trabalha com várias parcerias privadas no desenvolvimento de novos inoculantes já registrados e comercializados.Â
Reconhecimento - Em novembro de 2020, Mariangela Hungria foi classificada entre os 100 mil cientistas mais influentes no mundo, de acordo com estudo da Universidade de Stanford (EUA). O estudo, entitulado “Updated science-wide author databases of standardized citation indicatorsâ€, foi realizado a partir de um banco de dados mundial com sete milhões de cientistas e publicado no prestigioso periódico PLOS Biology. No estudo foram usadas as citações da base de dados Scopus, que atualiza a posição dos cientistas em dois rankings: 1) o impacto do pesquisador ao longo da carreira e; 2) o impacto do pesquisador em 2019.
CurrÃculo – Mariangela possui graduação em Engenharia Agronômica (USP-ESALQ), mestrado em Solos e Nutrição de Plantas (USP–ESALQ), doutorado em Ciência do Solo (UFRRJ) e pós-doutorado em três universidades: Cornell University, University of California-Davis e Universidade de Sevilla. A pesquisadora foi representante da área ambiental e do solo da Sociedade Brasileira de Microbiologia por 20 anos, foi a primeira presidente da Sociedade Brasileira de Ciência do Solo e atuou como vice-presidente e presidente da RELARE (Reunião da Rede de Laboratórios para a Recomendação, Padronização e Difusão de Tecnologia de Inoculantes Microbianos de Interesse AgrÃcola), que reúne representantes da pesquisa, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e do setor privado. Também faz parte do comitê coordenador do projeto N2Africa, financiado pela Fundação Bill & Melinda Gates para projetos de fixação biológica do nitrogênio na Ãfrica, além de projetos com praticamente todos os paÃses da América do Sul e Caribe, além de paÃses da Europa, Austrália, EUA e Canadá.Â