Até pouco tempo, eram comuns afirmações de que enzimas da classe das hidrolases glicosÃdicas atuavam sempre a partir apenas de um determinado “itinerário conformacional†durante o ciclo catalÃtico. No entanto, trabalho desenvolvido por pesquisadores do Laboratório Nacional de Biorrenováveis (LNBR), que integra Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) e publicado na revista Nature Communications revelou que enzimas ativas sobre a hemicelulose, centrais para valorização de resÃduos agroindustriais, são capazes de clivar ligações glicosÃdicas por duas rotas catalÃticas, algo inesperado em biocatálise de carboidratos. Essa descoberta abre novos horizontes a respeito do funcionamento molecular de uma classe de enzimas de grande relevância industrial e traz impactos imediatos no desenvolvimento teórico na área da biocatálise.Â
A enzima relatada neste artigo é peça-chave no desenvolvimento de biocombustÃveis e bioprodutos, já que se trata de uma proteÃna com potencial para aumentar a obtenção de açúcares a partir de resÃduos industriais. Essa caracterÃstica, avaliam os pesquisadores, é essencial para a indústria de biorrenováveis que está continuamente em busca de processos que aliem eficiência na obtenção de açúcar e rapidez na conversão em produtos de alto valor agregado e baixa pegada de carbono.Â
Mas, se as coisas ainda parecem um pouco confusas, vamos esclarecer. Itinerário catalÃtico, no jargão cientÃfico, representa as modificações quÃmicas e estruturais que o substrato sofre pela ação da enzima até que este seja clivado e um produto seja formado. Esse conjunto de modificações quÃmicas e estruturais, chamado aqui de itinerário catalÃtico, era considerado único para uma dada enzima e seu substrato – molécula, neste caso carboidrato, que será reconhecido pela enzima e então clivado (convertido em produtos). O trabalho do LNBR/CNPEM quebra este paradigma e demonstra por cálculos quânticos e por experimentos em super resolução que algumas enzimas de grande importância industrial podem funcionar por itinerário catalÃticos alternativos e viáveis no ponto de vista termodinâmico.Â
“Esses resultados, além de modificar nosso entendimento no campo teórico da biocatálise de carboidratos, elevam nossa capacidade de racionalmente engenheirar enzimas visando aplicações biotecnológicasâ€, esclarece Mario Murakami, Diretor CientÃfico do LNBR/CNPEM e lÃder deste estudo.Â
Na prática, o estudo permitirá que outros pesquisadores encontrem formas para redesenhar o sÃtio ativo – região da enzima responsável por ligar e converter o substrato em um produto – bem como para criar moléculas análogas ao substrato capazes de inibir ações de determinadas enzimas. Isso é especialmente importante em inúmeras aplicações que vão da produção industrial de quÃmicos biorrenováveis (aqueles obtidos a partir de plantas), até à área da saúde. “Pensemos em um profissional trabalhando com uma célula. Durante esse trabalho, o pesquisador identifica uma atividade enzimática que precisa ser inibida (desativada). A partir do conhecimento obtido com o desenho racional é possÃvel criar este inibidor customizadoâ€, explica Mariana Morais, pesquisadora do LNBR/CNPEM e autora principal do estudo.Â
Para esse estudo, os cientistas utilizaram o estado da arte em instrumentação SÃncrotron do Laboratório Nacional de Luz SÃncrotron (LNLS/CNPEM) para a cristalografia de raios X, enquanto as simulações computacionais baseadas em cálculos quânticos foram realizadas na rede espanhola de supercomputadores e na Universidade de Barcelona. Os demais experimentos foram feitos nas instalações do LNBR e do Laboratório Nacional de Biociências (LNBio). O trabalho foi realizado com auxÃlios FAPESP (2015/26982-0, 2016/19995-0 e 2018/22138-8) e CNPq (306135/2016-7), além de agências financiadoras da Europa.Â