O manejo adequado da aplicação de adubo e outros insumos nas lavouras – essencial para garantir a sustentabilidade econômica e ambiental na produção agrÃcola – depende do mapeamento preciso do solo em áreas de plantações. Os métodos convencionais à disposição para esse tipo de avaliação, porém, são onerosos e têm precisão limitada. Para contornar o problema, a startup Cropman, sediada em Campinas, desenvolveu uma metodologia inovadora para diagnóstico de solos com alta precisão e custo reduzido.
Com apoio do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), da FAPESP, pesquisadores da empresa desenvolveram a plataforma tecnológica Smart Sampling, baseada no uso de múltiplos sensores em campo, com automação no fluxo de informações e mineração de dados a partir da aplicação de um algoritmo inovador.
Os algoritmos produzem mapeamentos de zonas permanentes de manejo e de compactação de solos, que permitem ao agricultor o uso racional de insumos e o preparo de solos a profundidade variável, assegurando economia, eficiência, produtividade e sustentabilidade nas práticas agrÃcolas.
De acordo com Henrique Coutinho Junqueira Franco, pesquisador responsável pelo projeto, atualmente um dos fatores limitantes para o mapeamento preciso dos solos é a quantidade de amostras necessárias. Para se obter o mapeamento adequado dos atributos fÃsicos e quÃmicos do solo é necessário realizar uma amostragem densa na área.
“Na agricultura de precisão clássica, o método consiste em desenhar sobre o mapa da fazenda uma grade amostral densa, realizando coletas de amostras de solo a cada 100 metros, a fim de obter uma amostra para cada hectare. Em grandes áreas, essa amostragem tão densa é trabalhosa e eleva muito os custos, sem precisão adequada. Eventualmente isso torna o mapeamento impraticável tanto fisicamente quanto economicamente”, explica Franco.
Com inspiração no modelo de mapeamento de solos utilizado pela indústria petrolÃfera, o pacote tecnológico Smart Sampling permite obter uma amostragem inteligente, orientada por atributos do solo que são obtidos a partir de informações de sensores de condutividade elétrica. Mesmo com um número muito menor de amostras, o mapeamento é mais eficiente e completo.
“Em campo, basta trafegar sobre a área com um veÃculo equipado de um sensor proximal de condutividade elétrica, que passa a menos de um metro de distância do solo. Os pulsos que retornam do solo são medidos e sua intensidade tem relação direta com o tipo de solo: proporção de argila, compactação, presença de pedras e assim por diante”, diz Franco.
O método permite mapear a variabilidade das condições do solo, otimizando o gerenciamento e a tomada de decisão do produtor quanto aos insumos necessários para cada área da plantação. Como os atributos do solo são coletados em diversas profundidades, segundo Franco, é possÃvel identificar detalhadamente as condições de compactação do solo.
“Conseguimos ver a variabilidade do solo que o olho não vê – e que explica por que, em uma mesma área, uma colheitadeira pode obter 124 toneladas de cana em uma parte e apenas uma tonelada em outra”, afirma.
De acordo com o pesquisador, com as informações de altimetria e de amostras de solo coletadas em locais estratégicos, o Smart Sampling permite gerar zonas permanentes de manejo para diversos usos agrÃcolas e para qualquer cultura, reduzindo custos no uso de insumos e aumentando a produtividade. Para isso, o imenso número de dados obtidos pelos sensoriamentos são processados por algoritmos desenvolvidos pela Cropman, entregando substancial eficiência no diagnóstico de solos agrÃcolas.
“Usamos vários sensores para avaliar a produção, mas o nosso diferencial – e a verdadeira inovação – está relacionado à aplicação do algoritmo. O segredo do serviço que prestamos consiste em saber o que fazer com os dados que coletamos”, diz Franco.
Menos amostras, mais precisão
Segundo Franco, o desenvolvimento do algoritmo foi baseado nos softwares utilizados pela indústria do petróleo para definir a localização da perfuração de poços a partir da obtenção de informações sÃsmicas do solo obtidas por sensores.
“Nessa indústria, não se sai perfurando à s cegas, é preciso ser altamente assertivo. Assim, eles alimentam algoritmos com dados qualitativos e quantitativos nas áreas onde estudos de prospecção indicaram alta probabilidade de petróleo. Pensando nisso, nos ocorreu a ideia de criar um algoritmo que fosse alimentado com coordenadas e dados do solo das propriedades agrÃcolas, a fim de gerir informações para tomada de decisão do produtorâ€, explica.
Na fase conceitual do desenvolvimento do algoritmo, os pesquisadores já conseguiam produzir mapas tão bons como os que são feitos a partir de uma grade amostral densa, com coletas a cada 25 metros – mas com um número de amostras dez vezes menor. “O algoritmo era alimentado pelos dados de variabilidade elétrica e nos dizia onde coletar as amostras para fazer um mapa muito qualificado. Com isso, era preciso coletar muito menos”, afirma Franco.
No projeto PIPE fase 2, os pesquisadores decidiram escalonar a tecnologia e reunir tudo em uma única plataforma de gestão de dados. Dessa forma, surgiu o Smart Sampling, que possibilitou uma evolução das grades amostrais para o estabelecimento de zonas de manejo precisamente determinadas.
“Depois de passar o sensor e rodar o algoritmo, rapidamente tÃnhamos os pontos precisos onde fazer a coleta no dia seguinte. Essas amostras eram analisadas no laboratório. A partir da mineração dos dados obtidos, criamos polÃgonos com a caracterÃstica de cada porção – que pode receber os insumos certos na quantidade necessária. Ninguém fazia isso e percebemos que tÃnhamos uma inovação nas mãos. Embutimos no PIPE essa ideia de criar as zonas de manejo e intensificamos o processo de automação”, explica Franco.
Parceria multinacional
Em 2019, Franco visitou a Ãustria para conhecer a Geoprospector, empresa que desenvolve um sensor de indução eletromagnética que seria utilizado pela empresa brasileira. Essa parceria acabou aproximando a Cropman da multinacional italiana CNH Industrial, que detém parte da empresa austrÃaca. Em 2020, ainda antes da pandemia de COVID-19, a Cropman fez uma aproximação com a CNH Industrial, que estava lançando no Brasil o Agxtend, uma plataforma inovadora de soluções para a agricultura digital.
Segundo Franco, os representantes da multinacional italiana ficaram impressionados com o pacote tecnológico desenvolvido pela Cropman – e em especial com o que o algoritmo da empresa brasileira era capaz de fazer com os dados.
“Eles viram o funcionamento do software da Cropman combinado ao hardware austrÃaco e perceberam que nosso processamento potencializava o sensor da Geoprospector. Eles ficaram impressionados e começamos a discutir uma parceria”, diz Franco.
A pandemia atrasou um pouco a aproximação, mas na metade de 2021 as empresas assinaram um contrato de acordo comercial. “A parceria é assim: a CNH nos traz mercado, via concessionários – que chegam a uma centena no Brasil e na América Latina –, nós operamos o hardware deles e nossos softwares com os clientes das concessionárias”, detalha o pesquisador.
Segundo ele, a parceria rendeu o Programa Agxtend Brasil, lançado em outubro, que também envolve a Case IH e a New Holland Agriculture, duas fabricantes de maquinário agrÃcola do grupo CNH Industrial.
Com a parceria, o hardware, que é o principal insumo utilizado nos mapeamentos, é cedido para a Cropman sem custos – algo fundamental para que a empresa ganhe escala. A Cropman paga uma taxa por hectare mapeado aos parceiros, pelo uso do sensor, e se beneficia pelo acesso ao mercado via concessionários CNH. Sem essa parceria, a empresa levaria muito mais tempo para entrar no mercado.
“Pode se tornar um case de sucesso. É difÃcil ganhar escala, mas nós temos conseguido focar no aprimoramento dos nossos processos e eles nos ajudam com o acesso ao mercado”, avalia Franco.