Movimento busca ampliar rastreabilidade, valorização da origem e presença dos cafés brasileiros no mercado internacional
O café brasileiro está deixando de ser reconhecido apenas pelo volume produzido e exportado. Em diferentes regiões do país, produtores, entidades e instituições vêm trabalhando para transformar território, tradição, características naturais e conhecimento acumulado em uma identidade capaz de gerar valor para o produto. O movimento ganha destaque neste 1º de outubro, Dia Internacional do Café, em um momento em que o Brasil caminha para uma safra recorde e amplia o número de regiões produtoras reconhecidas por Indicações Geográficas (IGs).
O Brasil mantém ainda a posição de maior produtor e exportador mundial e de segundo maior consumidor de café, com presença no mercado internacional em cerca de 150 países. A dimensão da cafeicultura brasileira também se revela pela sua diversidade e pela evolução de sua eficiência produtiva. Segundo o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), o país reúne 39 regiões produtoras e mais de 1.500 municípios envolvidos na atividade. Nas últimas décadas, a cafeicultura brasileira reduziu em 55% a área destinada à produção, ao mesmo tempo em que elevou em 400% a produtividade, resultado associado à modernização do setor, aos avanços da pesquisa e à adoção de novas tecnologias.
Atualmente, 25 regiões brasileiras de café possuem reconhecimento do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) nas modalidades Indicação de Procedência (IP) e Denominação de Origem (DO). Algumas dessas áreas abrangem diversos municípios e existem sobreposições territoriais. O reconhecimento estabelece uma relação formal entre o produto e seu território de origem.
Dentro desse universo, 17 regiões participam da Plataforma Origem Controlada de Café de Origem, iniciativa que deu origem ao Instituto BRASIS Cafés de Origem e que trabalha com rastreabilidade, valorização das regiões e estratégias de internacionalização. Segundo informações do Instituto BRASIS, a plataforma alcança cerca de 500 municípios e reúne uma produção estimada em 33,8 milhões de sacas de café. O movimento é apresentado pela entidade como uma das maiores iniciativas coletivas de cafés de origem com identidade geográfica no mundo.
O avanço das Indicações Geográficas acompanha uma transformação na maneira como o café brasileiro é apresentado ao consumidor. Em vez de uma commodity identificada principalmente pelo país produtor, a proposta é mostrar também de onde aquele café vem, quais características estão associadas àquele território e quais práticas estão por trás de sua produção.
O próprio INPI destaca que uma Denominação de Origem exige a comprovação da relação entre as características ou qualidades do produto e os fatores naturais e humanos do território. No caso da Região do Cerrado Mineiro, por exemplo, o Instituto reconhece a relação entre condições locais e práticas específicas de cultivo e manejo que resultam em características próprias do café.
Um país, diferentes identidades
A diversidade geográfica brasileira ajuda a explicar a multiplicação das Indicações Geográficas. Montanhas, altitude, clima, solos, regimes de chuva, variedades cultivadas e práticas desenvolvidas pelos cafeicultores ao longo das gerações contribuem para formar perfis distintos.
Nos últimos anos, novas regiões passaram a integrar esse mapa. Em 2026, por exemplo, o INPI concedeu registros de Indicação de Procedência para Serra de Baturité, no Ceará, e Chapada de Minas, em Minas Gerais. A Serra de Baturité abrange 13 municípios cearenses, enquanto a área delimitada da Chapada de Minas contempla 22 municípios. O movimento mostra que a geografia do café de origem brasileiro vai muito além dos territórios tradicionalmente conhecidos pelo mercado internacional.
Rastreabilidade como estratégia
Foi justamente para discutir os próximos passos desse movimento que representantes das regiões integrantes da Plataforma Origem Controlada se reuniram recentemente no Instituto Agronômico de Campinas (IAC), em São Paulo. O encontro discutiu a utilização estratégica dos dados da plataforma de rastreabilidade para orientar políticas públicas, a manutenção e evolução do sistema digital, a internacionalização das Indicações Geográficas, genética e cultivares e as oportunidades e desafios relacionados ao Acordo Mercosul-União Europeia.
Café brasileiro vive safra recorde
O movimento de valorização da origem ocorre em um momento particularmente importante para a cafeicultura brasileira. Segundo o terceiro levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), divulgado em 24 de setembro, a produção brasileira de café em 2026 está estimada em 67,6 milhões de sacas de 60 quilos, crescimento de 19,6% em relação a 2025 e maior resultado da série histórica da companhia. O levantamento foi realizado quando 99% da área já havia sido colhida.
A expansão é resultado tanto do aumento da área em produção quanto da melhora da produtividade. A área produtiva deve chegar a 1,95 milhão de hectares, alta de 5,1%, enquanto a produtividade média nacional deve alcançar 34,6 sacas por hectare, avanço de 13,8%. O café arábica responde por aproximadamente 70% da produção brasileira. Para 2026, a Conab estima 48,2 milhões de sacas de arábica, alta de 34,8% sobre o ano anterior. Minas Gerais concentra grande parte desse volume, com previsão de 34,96 milhões de sacas de arábica.
Já o conilon deve alcançar 19,4 milhões de sacas, queda de 6,6% em relação a 2025. O Espírito Santo permanece como principal produtor da variedade, embora a Conab estime redução de 14,3% na produção de conilon do estado.
Quanto vale o café na origem?
Nas cotações da Bolsa Brasileira de Mercadorias (BBM), os valores de referência para o café arábica são formados a partir de negócios realizados no mercado físico e representam preços pagos ao produtor, sem impostos, para café tipo 6 ou melhor, bebida dura. A BBM atualiza as cotações diariamente em dias úteis. No último levantamento, disponível na quarta-feira (30), as referências do café arábica indicavam, por saca de 60 quilos os seguintes valores:
- Araguari (MG): R$ 1.650
- Franca (SP): R$ 1.620
- Varginha (MG): R$ 1.617
- Guaxupé (MG): R$ 1.583
- Maringá (PR): R$ 1.565
- Manhuaçu (MG): R$ 1.545
CONFIRA AQUI AS COTAÇÕES COMPLETAS DO CAFÉ NA BBM
Da commodity ao território
O desafio colocado pelas regiões produtoras é fazer com que o reconhecimento geográfico se converta em valor efetivo para quem está na origem. Para isso, a estratégia passa por rastreabilidade, padronização, proteção da identidade, acesso a mercados e comunicação internacional. A ideia é que o consumidor consiga identificar não apenas que está comprando café brasileiro, mas também qual região produziu aquele café e o que diferencia aquele território.
A internacionalização, portanto, aparece como um dos próximos passos para as regiões brasileiras. Mais do que conquistar novos mercados, o objetivo é levar para fora do país uma narrativa que associe Brasil, diversidade territorial, qualidade, rastreabilidade e identidade.
Em um país que deve produzir 67,6 milhões de sacas em 2026, o desafio já não é apenas produzir mais café, mas também fazer com que o mercado reconheça o valor de onde esse café nasceu. E talvez seja justamente aí que esteja uma das próximas fronteiras do café brasileiro: transformar o mapa do país em uma coleção de origens reconhecidas pelo mundo.


