Um novo Zoneamento AgrÃcola de Risco Climático (Zarc) para as culturas do pessegueiro e da nectarineira foi publicado nesta quarta-feira (18) no Diário Oficial da União pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Elaborado com base em estudos da Embrapa Clima Temperado (RS) e da Embrapa Informática Agropecuária (SP), o documento indica as áreas e perÃodos de menor risco climático para essas culturas no paÃs e define as regiões mais indicadas para o cultivo, de maneira a reduzir perdas e garantir rendimentos mais elevados.Â
A principal novidade é o uso de metodologia unificada para ampliação das avaliações para todo o Brasil e a identificação de novas regiões com potencial para produzir essas espécies. “O trabalho mostrou regiões do paÃs com condições semelhantes à s do Rio Grande do Sul, com potencial e que podem ser exploradas, criando um novo desafio para a pesquisa nacional de testar a viabilidade dessas áreasâ€, explica o pesquisador da Embrapa Clima Temperado responsável pelo trabalho, Carlos Reisser Júnior. Â
O último Zarc pêssego foi publicado pelo Mapa em 2011 e revogado em 2018. Ao longo dos anos, várias entidades realizaram estudos especÃficos para seus respectivos estados.
O estudo realizado pela Embrapa Clima Temperado em 2002 para o Rio Grande do Sul, por exemplo, não considerava riscos hÃdricos, apenas de temperatura. Além disso, algumas das cultivares recomendadas eram diferentes das atuais. De forma geral, o estudo recomendava o cultivo com base em oito regiões climáticas do estado, o que demandava atualização anual para inserção, em cada região, das novas cultivares lançadas pelos programas de melhoramento.Â
Com a nova metodologia, ao invés de limitar a recomendação das cultivares apenas por região, de acordo com a disponibilidade de Horas de Frio (HF), o novo zoneamento trabalha, não apenas com a exigência de frio das cultivares registradas e recomendadas pelo Mapa, mas também com suas datas médias de floração – momento que baliza a ocorrência das demais fases da planta. Assim, é possÃvel cruzar as exigências hÃdricas e de temperatura de cada fase da planta com os dados médios de cada região, estabelecendo nÃveis de risco para cada fase.Â
A classificação em nÃveis de risco (de até 20%, de 20% a 30%, de 30% a 40% e de mais de 40%) é feita com base na disponibilidade de água e nos Ãndices de temperatura de cada região avaliada, para as diferentes fases da cultura. Locais com mais de 40% de risco não são recomendados para o cultivo.Â
Com relação à s regiões, de forma mais abrangente para contemplar todo o paÃs, o zoneamento definiu como regiões de alta disponibilidade de frio (superior a 450 HF) aquelas com temperatura mÃnima média no mês de julho inferior a 10º C; regiões de média disponibilidade de frio (de 200 a 450 HF) com temperatura entre 10 e 14º C; e regiões de baixa disponibilidade de frio (de 75 a 200 HF) com temperatura entre 14 e 15º C. São consideradas impróprias regiões com temperatura mÃnima média do mês de julho superior a 15º C.
A elaboração do material contou com a participação da cadeia produtiva e de representantes de entidades de pesquisa, ensino e extensão. Para isso, foram realizadas reuniões técnicas para definição da metodologia de execução do zoneamento e, posteriormente, para validação dos resultados.
Apoio no acesso a programas de garantia e seguroÂ
Além de recomendações para pomares já instalados, o zoneamento também traz como novidade a avaliação de riscos e a indicação das épocas adequadas para transplante de mudas e formação de novos pomares a serem financiados e segurados. No caso do pessegueiro e da nectarineira, o principal fator de risco é a deficiência hÃdrica, que pode retardar ou reduzir o pegamento das mudas transplantadas durante o inÃcio do ciclo vegetativo.Â
Essas recomendações são importantes porque muitos agentes financeiros apenas reconhecem as áreas e variedades contempladas pelos zoneamentos, bem como os produtores que respeitam as datas e recomendações das portarias. É o caso do Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro) e do Programa de Subvenção ao Seguro Rural (PSR). Sem o zoneamento, em alguns casos, representantes de entidades de assistência técnica e extensão rural precisam fornecer a indicação para que o produtor possa acessar o Proagro.
Especificidades dos sistemas de produção
O zoneamento ainda foi subdividido em quatro sistemas de produção, de acordo com o risco de cada um. Em sistemas de produção voltados ao consumo in natura, por exemplo, o preço de comercialização é maior quanto maior for o tamanho da fruta – desenvolvimento que depende da oferta de água. Já no caso dos sistemas de produção para a indústria, o padrão de qualidade relacionado ao tamanho é menos exigente e, portanto, a produção necessita menor quantidade de água.
Essa necessidade de disponibilidade hÃdrica diferente reflete em riscos distintos. Nos sistemas de produção não irrigados, os riscos pela baixa disponibilidade hÃdrica são considerados maiores no zoneamento para a produção de mesa em comparação ao zoneamento para a produção para a indústria.
No caso de sistemas de produção irrigados – o que geralmente ocorre na produção para comercialização in natura – o zoneamento pressupõe que não haverá falta de água para a cultura em nenhum momento, de forma que o risco hÃdrico é removido. Por fim, o zoneamento ainda considera os pomares com tecnologia de controle de geada, removendo também o risco de perdas nesse contexto.Â
O zoneamento, portanto, considera a avaliação de riscos para os seguintes sistemas de produção: para produção de mesa (mais exigentes em disponibilidade hÃdrica); para processamento (menos exigente em disponibilidade hÃdrica); irrigado (sem risco hÃdrico); e irrigado e com controle de geada (sem risco hÃdrico e de geada).Â
Critérios observados na avaliação de riscoÂ
Para elaboração do Zarc foram considerados como fatores de risco a possibilidade de deficiência hÃdrica, de calor e frio intenso durante a floração, de geada na fase de floração e de crescimento inicial do fruto, e de baixa disponibilidade de frio na fase de dormência. As avaliações consideram dados de séries históricas de cada região relativas a volumes de chuvas e a temperaturas máximas e mÃnimas coletadas por instituições brasileiras de pesquisa, ensino e extensão, bem como pelos próprios produtores.Â
No caso da disponibilidade hÃdrica, foram considerados dados de precipitação de chuvas dos últimos 30 anos; evapotranspiração de referência da cultura – ou seja, os nÃveis de perda de água por evaporação e transpiração das plantas; água disponÃvel no solo; e Ãndice de Satisfação das Necessidades de Ãgua (ISNA) para cada fase de interesse da cultura e para cada estação pluviométrica.Â
Com relação à s avaliações de riscos térmicos, foram considerados critérios como ocorrência de geadas, temperaturas muito baixas ou temperaturas muito elevadas. Embora a cultura do pessegueiro tenha uma exigência mÃnima de frio para seu desenvolvimento, temperaturas muito baixas podem causar danos no tecido das plantas, principalmente das flores e frutos, com possibilidade de impacto na produção.Â
Temperaturas altas, por outro lado, podem causar danos como abortamento de flores e redução de frutificação. A sensibilidade, em ambos os casos, varia conforme o momento de desenvolvimento da planta. A faixa de temperatura para cultivo economicamente viável é em torno de 24°C no perÃodo de vegetativo, de até 20°C no perÃodo de dormência, e de 25°C a 30°C, com amplitude térmica grande e alta insolação, no perÃodo próximo à colheita.Â
Cultivo de pêssego e nectarina no Brasil
O pessegueiro e a nectarineira são parentes próximos, pois pertencem à mesma espécie Prunus persica L. De modo geral, plantas dessa espécie se desenvolvem e produzem bem
em vários tipos de solos, com exceção daqueles com risco de encharcamento e deficiência de drenagem. O excesso de umidade é prejudicial durante todo o ciclo da cultura, sendo mais crÃtico na floração e maturação.Â
Com relação à s chuvas, dependendo da região, as plantas necessitam de precipitação em torno de 700 mm, distribuÃdas ao longo de seu desenvolvimento. O cultivo não é indicado para regiões com perÃodos de chuvas muito prolongados, que propiciam o aparecimento de doenças, sendo a podridão parda a principal delas.Â
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e EstatÃstica (IBGE), a cultura do pessegueiro ocupou, na safra 2019, uma área destinada à colheita de cerca de 16 mil hectares no paÃs, com produção estimada em 183 mil toneladas. A produtividade média girou em torno de 11,4 mil quilos por hectare.Â
O estado do Rio Grande do Sul se destaca com a maior área plantada e a maior produção: 11,8 mil hectares e 110,2 mil toneladas colhidas, com destaque para o cultivo de pêssego para a indústria.São Paulo fica em segundo lugar, com 1,5 mil hectares e 32,9 mil toneladas colhidas, com foco na produção de mesa. Na sequência, os maiores produtores são Santa Catarina, Minas Gerais, Paraná e EspÃrito Santo, respectivamente.
Com relação à nectarineira, os dados do IBGE mais recentes, de 2017, apontam área colhida de 355 hectares, com produção estimada em 4,2 mil toneladas. No Brasil, a cultura do pessegueiro é a mais importante e está presente em cerca de 5 mil estabelecimentos rurais, enquanto a nectarineira é cultivada em número de propriedades quase vinte vezes menor: cerca de 280 estabelecimentos. O estado de Santa Catarina se destaca como maior produtor de nectarinas, com 2,1 mil toneladas colhidas.Â
Disponibilização dos resultados
Produtores rurais e outros agentes do agronegócio podem acessar por meio de tablets e smartphones, de forma mais prática, as informações oficiais do Zarc, facilitando a orientação quanto aos programas de polÃtica agrÃcola do governo federal. O aplicativo móvel Zarc Plantio Certo, desenvolvido pela Embrapa Informática Agropecuária (Campinas/SP), está disponÃvel nas lojas de aplicativos:  iOS e Android  Â
Os resultados do Zarc também podem ser consultados e baixados por meio da plataforma  “Painel de Indicação de Riscosâ€Â e nas portarias de Zarc por Estado.